14 de mai de 2013

My Angel - Capítulo 3 - Passeio


3 de Fevereiro,  New York 2:10pm
    Levantei da cama com dores no corpo. Não tinha ido a escola, mal me agüentava em pé. Passei o dia inteiro no quarto, ouvindo os gritos, as brigas os insultos. Sentia-me aliviada por estar em meio ao silêncio quase mortal que a casa se encontrava agora. Agradecia todos os dias por terem empregos. Era o único momento em que sentia realmente 'feliz' que tinha todos os dias. Encarei o quarto simples, o lugar que é meu único refúgio. Ou era meu único refúgio. Limpei a garganta, fazendo um esforço enorme para andar até o closet e encontrar algo que cobrisse as marcas roxas que havia no meu corpo.  Por fim, escolhi algo confortável e elegante. Ninguém precisava saber sobre o que estava passando. E assim fui em direção ao banheiro, a fim de tomar um banho relaxante antes de ir me encontrar com o garoto, ao qual me esqueci de perguntar o nome. Será que ele iria mesmo? Na verdade eu estava torcendo para que ele fosse um traficante de órgãos, um assassino ou algo do gênero. Era a única forma de me livrar desse sofrimento de uma vez, sem correr o risco de me matar e queimar no inferno. Se eu tivesse sorte, ele carregasse uma arma consigo ficaria muito feliz, ou talvez caso ele fosse um cidadão comum, alguém invadisse o restaurante e atirasse no meu coração. Mas quem me dera ter essa sorte. Ele parece ser o garoto que tem a vidinha perfeita onde tudo é um mar de rosas. Onde é o filho perfeito e todos o amam. Se dependesse de sua beleza, ele estaria feito para a vida inteira. Mas prefiro não julgá-lo pela beleza. Meus pais são lindos, se comportam muito bem na frente dos outros. Mas apenas eu sei o que passo com eles. Estiquei o braço até a pia, vendo que se aproximava da hora de encontrá-lo no restaurante. Vesti-me com cuidado por conta dos machucados e sai do quarto quando já estava realmente pronta.

    Desci as escadas, tendo como companheiro o silêncio. Um silêncio maravilhoso. Não havia gritos, pessoas brigando, se estapeando ou quebrando coisas. Existia apenas eu e uma casa vazia. Apenas eu e o silêncio. Retomei minha caminhada até sair de casa. Algumas pessoas que passavam pela rua, acenavam para mim. Outras, que não eram muitas me paravam para uma pequena conversa. À medida que andava, pensamentos e milhões de lembranças invadiam minha mente. Era como uma onda de lembranças, como se estivesse revivendo por meros segundos uma vida de dor, amargura e ódio. O ambiente onde cresci era assim. Alguns provavelmente sabiam das brigas dos meus pais, sabiam alguns que eu apanhava quase todos os dias. Outros simplesmente me achavam estranha, me julgavam antes mesmo de me conhecer. Porém isso pouco importava. Apenas queria viver longe de tudo aquilo. Ter um pouco de tranqüilidade e seguir minha vida do jeito certo. Senti no bolso do casaco o pequeno baseado que havia adquirido há dois dias.  Sim, sou usuária de maconha, mas quem liga?
- Pensei que não viria. - ouvi a mesma voz rouca me despertar dos pensamentos. Neste instante notei que estava no mesmo restaurante de noite passada. O rapaz sorriu para mim, levantando. Arrastou um pouco a cadeira apontando com a cabeça para ela.
- Sente-se, por favor. Vamos comer alguma coisa antes de ir. - falou gentil. Assenti agradecendo a gentileza. Sentei na cadeira depois de seu ato de cavalheirismo, vendo ele se sentar a minha frente em seguida. Será que ele faz isso com todas as garotas com quem sai?
- Pensei que iríamos sair para conhecer a cidade. Ela é enorme, vai demorar um pouco. - comentei.
- E vamos. Mas achei melhor comermos algo antes de ir... Como passou a noite, Hanna? - perguntou iniciando uma conversa. Está querendo saber demais. Não gostei disso.
- De onde você é?
- Eu sou do Canadá. Ontário, Stratford. Já ouviu falar? - perguntou ele. Sempre com um sorriso no rosto. Não gosto de pessoas felizes.
- Nunca ouvi falar. Mas o que está fazendo exatamente por aqui? Digo, parece que estudar não é um argumento muito viável.
- Bom, na verdade meus pais são donos de empresas. Na verdade meu pai é bancário e resolveu mudar para cá por conta dos negócios. Ele soube que havia algo com a bolsa de valores de New York e resolveu cuidar do assunto mais de perto.  Ele não confia em seus funcionários. - respondeu ele. Assenti com a cabeça, olhando para os lados por breves momentos. Ele é um riquinho bobo. Essa foi à impressão que me passou na primeira vez que o vi. E até agora, tudo indicava que estava certa.
- Mas se tem tanto dinheiro, porque veio comer em um lugar como esses? Só pessoas de baixa renda em aqui.
- Assim como você?
- É, assim como eu. - afirmei. Ele riu arrumando-se melhor a cadeira.
- Você deve estar pensando que sou um garoto mimado, não é?
- É, estou sim. Na verdade foi isso que pensei quando vi você ontem. E é o que você deve ser não é? Não quero ofender, mas você não sabe de nada sobre o que pessoas como eu passam todos os dias. Tenho certeza de que sua vida é perfeita. - comentei em minha ousadia. Ele por sua vez, balançou a cabeça negando.
- Mas eu não sou assim. É verdade. Meus pais gostam de luxo e fortuna. Quase não são presentes em minha vida, mas quando estamos juntos nos divertimos bastante. Nós nos amamos muito. Eles me ensinaram que apesar de gostarem do conforto que a fortuna incalculável que tem lhes proporciona que, há coisas mais importantes na vida do que o dinheiro.
- Por exemplo?...
- O amor é um deles. E o principal. Eu acho que não devemos ver as pessoas por sua aparência. Já conheci várias pessoas ricas sem um 'pingo' de amor no coração. Enquanto outras que não tem o dinheiro que tem, são felizes e estão sempre sorrindo. Eu gosto da simplicidade. Gosto de saber que há valores e sentimentos. Não concorda?
- Não. Acho que o mundo é cruel demais para que eles pensem no próximo. Há muito ódio, rancor. Pessoas brigam e matam todos os dias por bobagem. Outras sofrem e se entregam as drogas. Não acho que o mundo tenha amor...
- Não acredita em amor a primeira vista? - perguntou ele se debruçando sobre a mesa. Seu olhar era curioso e se mantinha preso ao meu.
- Acreditar em amor a primeira vista, é o mesmo que você se apaixonar pelo vento. Isso não existe.
- Não seja tão dura...
- Não sou dura, sou realista. - repliquei firme, vendo-o assentir. O garoto chamou o garçom e assim fizemos nossos pedidos. Minha barriga roncava baixinho, e meu corpo ainda doía pelo esforço que fiz para chegar até aqui.  Mas ele não poderia notar isso.
- O que acha de traçarmos uma rota de lugares que vamos ir? Será melhor, assim nós não nos perdemos ou esqueceremos os lugares que já visitamos. - sugeriu depois de beber um gole de sua bebida.
- Excelente ideia. - afirmei.
[...]

- É lindo aqui.  - comentou o garoto ao meu lado.
Depois de visitar lugares como, Times Square, Empire State Building, Estação Grand Central, 5º Avenida, Rockefller Center, Central Park, A ponte do Brooklyn, a Sede da ONU (Organização das Nações Unidas), estávamos agora na famosa Estátua da Liberdade. Eram tantos lugares para visitar que não sei como conseguimos chegar até essa parte de Manhattan, ainda em New York. Mas fica especificamente na Ilha da Liberdade na baía do Porto de New York. Era um pouco longe, admito. Tivemos de ir para lá via ferry, uma espécie de barca. Foi um passeio cansativo de fato. Mas foi simplesmente maravilhoso. Nunca pensei que um garoto poderia me fazer rir por simples bobagens. A cada coisa boba que via, encontrava um motivo para me fazer sorrir. Ele tinha conseguido em apenas um dia, tirar o semblante sério, o olhar vazio o rosto sem sorriso que eu tinha. Por vezes eu me pegava rindo das palavras bobas, e das observações malucas que fazia a cada coisa que via. Ele parecia realmente ser uma pessoa simples e encantadora.
- Espero que tenha gostado do passeio, e guardado bem o endereço da escola.  - comentei vendo-o rir.
- É claro que guardei. Acha que vou esquecer-me da ideia de que vou ser seu colega de classe? - perguntou risonho enquanto pegávamos ferry para voltar para casa.
- Não me faça lembrar isso. Acha que eu gostei de saber que vou ter um doido como colega de classe? - perguntei em um momento de descontração. Essa não era a Hanna que eu conhecia. A verdadeira Hanna estaria com o mesmo olhar vazio e semblante triste de sempre. Era como se ele tivesse jogado um tipo de feitiço sobre mim para me fazer sorrir. Como se tivesse se transformado em outra pessoa. Não sabia se era bom ou ruim. Mas gostava daquela sensação.
- Não seja tão modesta. – brincou ele por mais uma vez. O clima de conversas e brincadeiras bobas foram o suficiente para que, distraídos, chegássemos rápido demais a famosa Times Square. Ainda pude ver Justin sair do táxi com um belo sorriso no rosto.
- Foi um passeio maravilhoso, muito obrigado. – falou animado, agora a minha frente. Assenti positiva com a cabeça, escondendo um sorriso que se atrevia a invadir meu rosto devido sua animação.
- Não precisa agradecer. Você resgatou meu celular. Encare como uma troca de favores. – comentei piscando e ele riu.
- O que acha de comermos algo antes de ir?
- Já está tarde, e eu preciso mesmo ir. A cidade é grande, mas, tenho certeza de que nos encontraremos.
- Eu posso acompanhá-la até em casa? Sabe... É um modo de agradecer por ter sacrificado seu dia para me ajudar. – perguntou coçando a nuca. Era impressão, ou ele me parecia tímido, ou envergonhado?
- Não precisa.
- Mas estou de carro. Não vai demorar, é só você dizer o caminho. Uma garota não pode andar sozinha a essa hora da noite. – comentou tentando me convencer a ir com ele. Neguei.
- Agradeço a gentileza, mas acho melhor não. Talvez em outra oportunidade... Não é que eu tenha medo de você, apenas tenho outros afazeres. – menti em minha ultima frase, o que pareceu ser suficiente para convencê-lo. Seu sorriso não negava.
- Certo, então nos vemos em breve?
- Nos vemos em breve. – afirmei deixando um beijo em sua bochecha, antes de desaparecer por entre a multidão da rua. Pus por mais uma vez, a mão dentro do casaco tendo a certeza de que minha erva ainda estava lá. Mas infelizmente não foi isso que aconteceu, o que me fez tatear todos os bolsos da rouba. Bufei em ódio ao perceber que o tinha perdido. Aquilo não era justo! Tinha conseguido dez dólares naquela beleza, não consigo acreditar que perdi. Ainda irritada, pedi por um táxi que me levou a um lugar ‘menos’ movimentado da cidade. Não precisei chegar muito perto do prédio para ver algumas pessoas com seus produtos em mãos. E pude me deixar sentir inveja delas.
- Mas que gracinha. – comentou um dos homens que ali estavam. Revirei os olhos. Ele está drogado.  Continuei a andar até encontrar Luca em um dos corredores, e com isso sorri. Ele por sua vez, fez o mesmo cruzando os braços a minha frente.
- Acho que seria burrice minha se perguntasse o que veio fazer aqui, não é princesa? – questionou ele retirando os óculos escuros, dando a visão de um belo par de olhos castanhos claros.
- Me mostre o que você tem. – falei firme vendo sorrir. Luca segurou minha mão e me levou até um dos quartos. Podia ouvir o barulho de pessoas se pegando no andar de cima, ou de outras gritando devido às alucinações causadas pela erva. Mas já estava acostumada com tudo aquilo. Era normal. 
- Você sabe que meu produto é do melhor, apesar de ser mais barato do que os demais. Porque acha que minha clientela vem aumentando cada vez mais? Hum? – questionou irônico acariciando meu queixo com o dedo indicador. Revirei os olhos.
- Mas devo frisar que ainda não me pagou. Sabe o que acontece com pessoas que não pagam suas dívidas, não sabe?
- É claro que sei. E é claro que vou pagar. Só preciso de mais tempo.
- Eu vou te vender mais três, mas saiba que seu tempo está se esgotando, princesa. Não quero machucar esse rostinho lindo...
- Me dê a erva. Estou dizendo que vou pagar então eu vou pagar. Mas me dê logo o que quero. – cortei sua ironia vendo-o pegar a droga e deixá-las em minha mão. Com a ajuda de um isqueiro queimei o cigarro, puxando toda a fumaça para dentro do corpo. Segundos depois, soltei à fumaça sentindo uma sensação prazerosa preencher meu corpo. Sorri grata, dando as costas aos rapazes.
- Se lembre gata, eu quero minha grana em uma semana.  – lembrou Luca mais uma vez antes que eu sumisse para sempre de sua visão. 
Ali entre as pessoas, me permitir sorrir sentando na primeira cadeira que vi. O cheiro forte da droga era evidente. Mesmo usando a minha, ela se misturava com os demais deixando o cheiro ainda mais forte. Sorri levantando da cadeira, ao ouvir a música alta penetrar em meus ouvidos quase que horas depois de usar a droga. Girei meu corpo entre as pessoas, dançando livremente no lugar apertado. Sentia-me leve e por incrível que pareça, as pessoas estavam cor de rosa. Era tão lindo! Andei até a mesa pegando uma das facas que eram usadas para cortar a erva. Ela era grande e afiada. Afiada o suficiente para matar alguém com um simples golpe. Desfilei pelo local com ela até a saída, andando pelas ruas com um sorriso idiota no rosto. Passei a faca pelo pescoço lentamente, depois pelo busto e logo em seguida para o cabelo. Depois de guardá-la no bolso, junto com os outros dois cigarros percebi que as pessoas me olhavam estranhas. Mas afinal, porque me olham estranho se estão verdes? Dei de ombros abrindo a porta da casa e não me admirei por ver meu ‘pai’ transando com uma loira no sofá. E quando me viu, suas expressões se encheram de fúria largando a garota, andando em minha direção apenas e cueca boxer. Que nojo.
- Esteve se drogando? Anda sua vagabunda me responde! Andou se drogando? – perguntou ele em fúria. Aquilo me fez rir. Rir até sentir sua mão pesada sobre minha face, fazendo meu maxilar estalar. Eu ainda ria aquilo não tinha doido.
- Nossa que medinho dele. Virou uma menininha. Bate como homem, merda! – gritei sendo empurrada com força contra a parede.  Ele desferiu um murro em meu estômago que fez urrar. Desgraçado! Tirei a faca do bolso do casaco, tentando acertá-lo. De fato consegui, já que vi sangue em sua mão. O corte não fora profundo, mas foi o suficiente para assustá-lo. O que foi a deixa pra eu andar até o quarto e fechar a porta ainda rindo. Escorreguei pela porta, até finalmente sentar no chão. Depois disso, o quarto ficou completamente escuro.

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